Reconstrução

               Lembro de um trabalho que fiz. Com toda a improvisação da arte da busca de uma verdade...me perdi e rasguei o trabalho. Aos prantos por não encontrar nada. No outro dia mais calma encontrei o caminho e fiz uma colagem. Já se passaram alguns anos mas a colagem continua. O meu trabalho é uma colagem de mim mesma. Um trabalho de cura.
               Um trabalho de cura. Uma colagem de imagens, Influência da aldeia global, da comunicação virtual e transcedental. Da biodiversidade do ser humano e das imagens gerada por ele. Da comunicação em janelas da alma e de monitores. Quadro a quadro, frame a frame, porque é assim que as coisas acontecem. Descontinuadas e editadas. Arte é emoção. Um instante de luz ou de trevas. Pinto como danço. Uma questão de ritmo. Imagens em movimento.
               Cenografia e Figurino porque é difícil separar realidade e ficção. A vida da arte. Que para mim acontece com rotina de cozinha. Onde o tupperware usado para fazer tinta pode virar pintura, ou as roupas usadas para pintar e limpar pincéis também.

Beth Mello

 

               Visceral. Algo que surge como um reflexo aleatório, instintivo, casual. Mas não apenas. Um foco na cor, textura. símbolos cognitivos e elementos harmônicos que interagem e exaustivamente repetem-se em novos ângulos, dimensões, proporções. Não há uma medida exata, nem um objetivo principal. ...

               Olhando no fundo de suas telas podemos ler sua luta, sua angústia, os pesadelos e os sonhos. A linguagem é cifrada, para poucos, muito poucos que permite se aproximar de seu mundo. Sua proteção é a sua pintura e a veste como um véu. 

               Beth Mello é uma pintora, uma artista, uma sobrevivente. Seus quadros a delatam, talvez isso que a faz viver junto com as suas criaturas, que povoam uma multidão de hóspedes.

               Irrequieta, tudo em sua volta é volátil e em constante movimento, como uma instalação permanente e móvel. Porém seu estado primordial permanece perene e imutável. Mas é muito mais: tudo em sua volta como em círculos. 

               O círculo é seu gesto primo. Em tudo há seu trade, sua marca. Repete-se como os dias e as noites: em prismas de cores, em elementos básicos, em harmonias caóticas, em semi-ângulos de interseções descontinuadas, ou em puzzles de várias telas. 

               Este é seu código, sua caligrafia, escrita em ordem complexa e com sua lógica interna. O resultado é vibrante, suave, harmônico. Seu processo de criação é como um filme, onde os takes são filmados fora de ordem e depois editados em lógica. O trabalho da Beth aparece aos poucos e só se torna crível quando dispostos em sua ordem. Mas podem funcionar sozinhos, como obra única ou em conjunto como uma obra aberta.

               Por dentro dos círculos, Beth forja seu poder. Primordial mais poderoso da natureza, o círculo simboliza a vida, a criação, o mundo, a mulher e o poder. ... A luta de ser mulher e de viver arte, rompendo as barreiras de uma sociedade que alicia os desejos de auto-expressão, ao mesmo tempo que endossa a cultura em uma redoma de vitrines de shoppings. 

               Beth Mello vai mais além, rompe as barreiras do suporte e vive arte em toda sua dimensão. Sua casa, suas roupas, móveis, seu olhar é arte e tudo é obra, signos que convivem absorvendo a multiplicidade de sua vivência. Em sua nova mostra, a artista recria cenários que nos levam para dentro de seu mundo. 

               Um gesto forte e uma oportunidade rara, desnudando seus fragmentos e nos revelando uma artista e seu olhar.

Hélio Eudoro - artista visual

 

Acasos não Casuais

Conceitual or not conceitual. Não importa. O que importa são as pinturas, são os objetos resultantes. Sejam pintados com pincéis e tintas ou recolhidos do chão e das paredes de um ateliê forrado dos pés a cabeça como um penetrável. Pinturas tratadas como pinturas na procura por uma identidade/ linguagem consciente e ao mesmo tempo totalmente inconsciente e suas conseqüências conceituais. Mostrar como ambas são muito próximas, mesmo totalmente aleatórias. A energia é a mesma. O meu acaso é só meu.

O universo conspira para a arte. A necessidade quase patológica de identificar os signos espontâneos que a arqueologia do meu processo criativo demostra, me fez olhar fora do foco do suporte e reconhecer que a obra esta tanto na pintura que faço intencionalmente, quando ao redor, que aparece intuitivamente. A evolução do ensaio de 1998, Quadro a Quadro quando expus minha cenografia de trabalho, parti para um olhar mais delicado, onde o questionamento inicial da espontaneidade do processo criativo assume um caráter impositivo e confronta o eu pintor com o eu observador do meu mundo e da natureza criativa do universo.

Beth Mello